terça-feira, 29 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO

Aos nossos amigos, alunos, colegas, clientes e a todos que partilharam conosco os momentos alegres e os momentos difíceis neste ano que termina, desejamos:
Muita PAZ,
SAÚDE e
REALIZAÇÕES
NOVOS CONHECIMENTOS
MUITAS ALEGRIAS

Que tenhamos a chance de estarmos juntos novamente em 2.010, aprendendo e ensinando uns aos outros.

FELIZ 2.010!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Abraços da Equipe Avalie & Realize

sábado, 17 de outubro de 2009

O Adolescente e as relações virtuais

A informática é uma ciência moderna, mas já com um alcance muito grande no mundo inteiro, dominando todos os meios de comunicação. Chegará o dia em que não se poderá mais estudar, trabalhar ou mesmo viver em sociedade sem saber manejar um computador.
Este poder avassalador da máquina adentra agora também um antigo objeto de estudo dos psicólogos: as relações humanas. Porém estas são relações diferentes, onde os encontros, namoros, "papos - cabeça”, brincadeiras acontecem apenas no plano do virtual, graças a uma “caixinha de mágicas”, ou melhor dizendo, a Internet, instrumento que torna possível o sonho adolescente de " viajar" para onde quiser, sem o consentimento dos pais, namorando e fazendo amigos. Através deste instrumento mágico, o adolescente pode até mesmo freqüentar "reuniões" altas horas da noite, desrespeitando as convenções estabelecidas sem o medo de uma punição. E, o melhor, protegido sob outra identidade se assim o desejar!
Nas relações virtuais, os jovens podem ser quem desejam ser, experimentar sensações que no real seriam inimagináveis. Podem tornar-se heróis aventureiros, “malucos-belezas” ou a princesa dos contos de fada. E ao mesmo tempo podem ser quem eles realmente são, assumindo seus gostos e atitudes, sem receio do que os amigos possam vir a pensar. Podem até criar um personagem diferente cada vez que navegam nas “ondas da Internet”.
Os adolescentes encontram-se numa fase de transição, onde deixam de ser crianças, mas ainda não são visto como adultos. Esta situação gera dúvidas e angústias, e o sofrimento decorrente disto é normalmente amenizado com a ajuda de fantasias e divagações. Os sonhos ajudam os adolescentes a superar seus períodos críticos e lhes dão força para batalhar pelo que querem, como uma profissão ou um amor. Porém, conforme ficam mais maduros, os adolescentes começam a perceber a realidade de uma outra maneira e a descobrir que o ideal e o real são duas coisas distintas, que dificilmente coincidem uma com a outra.
Nas relações virtuais esta ilusão pode perdurar infinitamente, pois não existe o real, tudo fica restrito a imaginação de quem utiliza a Internet. As adolescentes podem finalmente encontrar o seu príncipe encantado, lindo, romântico, sensível: um rapaz que esteja sempre cheiroso e bem vestido, do jeitinho com que elas sonham. Os rapazes podem virar o aventureiro, o “Indiana Jones, que não tem medo do perigo” ou o Don Juan, que conquista todas as "gatinhas". Mesmo que na realidade tais situações sejam bem diferentes do que parecem ser, isto não terá importância, o que importa é aquele momento vivido na frente de um computador e as palavras impressas na tela.
Cria-se a partir daí a ilusão de um mundo perfeito, onde só há espaço para a amizade, a lealdade e as coisas boas da vida e tudo de ruim fica de fora. Qualquer palavra áspera pode ser “deletada” com o aperto de uma tecla; mesmo os "romances virtuais" não geram tanto sofrimento quando rompidos, pois não implicam nas responsabilidades de um romance real. Por tudo isso, muitos internautas preferem não conhecer aquela outra pessoa, com quem tantas vezes trocaram confidências e dividiram momentos da mais profunda intimidade. Preferem continuar a encontrar-se apenas via Internet, para não "quebrar" a ilusão. Muitos internautas relatam que após conhecerem pessoalmente as pessoas com quem trocavam mensagens sentiram uma mudança no relacionamento e que prefeririam que a amizade continuasse a ser apenas virtual.
O sexo virtual ou cyber-sexo, como costuma ser chamado, é mais uma possibilidade deste tipo de relação. Não inclui, é claro, o contato físico, porém a relação sexual é descrita por cada um dos parceiros, que tentam excitar-se com a conotação erótica das palavras trocadas. Para os adolescentes é confortante a sensação de poderem experimentar esta "transa" diferente, que lhes proporciona a segurança de não gerar filhos, nem doenças sexualmente transmissíveis ou qualquer um dos fatos que costuma adiar a tão sonhada “primeira vez”.
Nesta etapa da vida é normal que o jovem, descobrindo sua sexualidade, teça fantasias acerca do seu objeto de desejo; portanto estas "transas" não constituem motivo de preocupação, desde que funcionem unicamente como uma espécie de preparação, um "treinamento provisório" para o contato físico, fundamental na vida do ser humano.
Observou-se que, ao serem entrevistados, muitos jovens, principalmente os mais velhos, negam a prática do sexo virtual, classificando-o como " frio”, “sem emoção", “um horror”. Porém em algumas entrevistas realizadas através da própria Internet e registradas em livros e revistas, outros tantos confessam já terem feito cyber sexo e apreciado suas sensações. Pode-se dizer então, que mais uma vez, o computador funciona como um facilitador.
Mais do que sexo, o que os freqüentadores da rede desejam é a amizade de alguém; uma pessoa que os "escute" sem tecer críticas a respeito de seus comportamentos, uma espécie de "psicólogo virtual". Querem ter alguém com quem possam dividir magoas e alegrias, sem precisar ter a preocupação de pedir segredos.
Muitas vezes, os adolescentes desejam conversar com alguém com quem possam esclarecer suas dúvidas e trocar experiências, desejam “ter” e “ser” amigos. Entretanto em um mundo como o nosso, em que o progresso avança cada vez mais rápido, obrigando os homens a correrem contra o tempo para conseguirem acompanhá-lo e assim garantir a sua sobrevivência, os adolescentes sentem a falta de alguém que os ampare. Nas relações virtuais, como tudo é “perfeito” e idealizado sempre haverá esse alguém.
Se o jovem conseguir conviver com essas fantasias, sem perder a objetividade do mundo externo, adquirindo ainda informações e experiências através do virtual, então tudo terá valido a pena. Basta que ele compreenda que a fantasia é apenas um complemento da vida, e não a própria vida.

Por:
Danielle Trilles Monticelli
Elaine Christovam de Azevedo
Gláucia Santos
Katia Regina Sá de Almeida
Lilian Galper

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Artigo: Reflexões sobre Orientação Profissional

Assisti uma cena da novela Caminho das Índias, da Rede Globo, há algum tempo atrás onde o personagem Tarso se descontrolava por que se sentia pressionado para trabalhar na empresa do pai e não desejava isso. Em outra cena, o mesmo personagem dizia para a namorada que não sabia quem era ou o que queria ser, se queria ser músico, arquiteto ou outra profissão.
Independentemente dos problemas mentais que o personagem vem demonstrando nos capítulos mais recentes, é comum que os jovens passem por este processo de angústia quando chega o momento em que terão que decidir a sua futura profissão. Portanto, enquanto orientadora profissional estas cenas me levaram a refletir sobre algumas questões. Em primeiro lugar, sempre achei curioso o quanto nos identificamos com a profissão que escolhemos, a tal ponto que ela passa a ocupar o lugar do “quem somos”. Experimente perguntar a qualquer pessoa sobre outra e em resposta ao “quem é ele” quase sempre você ouvirá a profissão do sujeito. Pergunte “o que você é” ou “o que você faz?” e o mesmo acontecerá. Em geral, a profissão prevalece sobre uma infinidade de outras respostas que poderíamos ter.
Penso que por isso os momentos em que somos cobrados a tomar determinadas atitudes que envolvem a questão profissional são tão angustiantes, momentos estes que vão da escolha profissional até a aposentadoria.
Enquanto a angústia daquele que está prestes a se aposentar é a de quem fez uma opção no passado e agora precisará descobrir novos caminhos, a do adolescente é a de quem terá que escolher pela primeira vez o seu caminho.
Defrontar-se com a escolha profissional significa deixar de ser estudante – o que não foi uma escolha sua, mas dos pais, preocupados com a sua educação – para assumir outra identidade, no caso, a identidade profissional. É como se ao escolher qual profissão quer seguir estivesse respondendo para o mundo quem ele é, suas qualidades e aspirações, como se estivesse mostrando a sua personalidade. As escolhas legitimas implicam em abraçar determinadas causas e abrir mão de outras, seja por de fato não se identificar ou não ter talento para estas ou porque era necessário, já que nunca, em tempo algum, ninguém conseguirá fazer simultaneamente todas as coisas com que sonha.
Escolher é difícil porque implica renunciar, mas o processo é menos sofrido se a escolha for coerente com quem somos, como pensamos, sentimos e como funcionamos no mundo. Já vi pessoas que são felizes exercendo profissões marcadas pela instabilidade e outras que jamais teriam estrutura para lidar com isso. Da mesma forma, já vi profissionais que ganham excelentes salários e sentem-se frustrados, pois a única realização no que fazem é o contracheque no final do mês.
Voltemos ao personagem da novela: um adulto jovem, que já está na faculdade, mas sente-se confuso por não ter certeza ainda do que quer e por ser insistentemente pressionado pelos pais a seguir um rumo que o deixaria infeliz. Quando diz “esta cadeira não tem nada a ver comigo”, referindo-se a cadeira da presidência da empresa do pai, está dizendo que assumir este lugar é anular a sua personalidade. Sem perceber a sensibilidade do filho, o pai quer que assuma o posto de empresário bem-sucedido, com faro para os negócios.
Sei que os pais são bem-intencionados ao querer ajudar o filho a escolher uma profissão, até mesmo porque já passaram pelo momento da escolha e sabem o sofrimento que este impõe. Mas a melhor maneira de ajudá-los é apenas mostrar para eles o que já passaram, contar suas experiências e até aconselhar, mas, sem impor. Pois, do contrário, podem destruir um talento ou gerar um sofrimento psíquico desnecessário. É preciso que o jovem descubra por conta própria a profissão com a qual se identifica e os prós e os contras desta.
Já tive oportunidade de trabalhar com jovens como Tarso, que tem aptidões para determinadas áreas, mas, sentem-se pressionados a fazer outras coisas. Lembro de um rapaz na faixa dos 20 e poucos anos que procurou a OP porque já havia mudado de faculdade um número infinito de vezes, sem conseguir definir o que queria. Curiosamente, todos os cursos que havia tentado tinham a ver com artes e seus testes, entrevistas, tudo nele apontava uma sensibilidade neste sentido. No meio do processo foi possível perceber, porém, que a difícil relação familiar, marcada por um pai ausente e uma mãe autoritária, contribuía para que não conseguisse estabelecer-se numa profissão e, mais do que isso, não conseguisse saber quem de fato era. Ouvindo o próprio rapaz e sua mãe, percebi que ela colocava defeito em todos os cursos que o filho iniciava, evocando velhos clichês, tais como “isto é coisa de bicha” ou “nessa área só tem drogado”, etc.
Tenho certeza que esta mãe amava o filho e queria o melhor para ele, mas, o efeito foi o contrário. O rapaz se rebelava contra a mãe fazendo determinadas coisas que colocavam sua própria integridade física em risco, mas, não conseguia escolher uma profissão nem fazer nada que o inscrevesse no mundo adulto, pulando de “galho em galho”, sem nunca conseguir se firmar em nenhum. Notem que esta mãe não impedia o filho de iniciar seus projetos, mas continuava exercendo tal pressão a ponto que o menino nunca conseguia terminá-los.
Neste caso, o trabalho do orientador é tentar o mais delicadamente possível clarificar esta situação para os pais, mostrando os dados da realidade e desfazendo estereótipos. Esta mãe realmente identificava artistas com marginais e queria resguardar o filho. Era preciso esclarecer para ela que na prática não é bem assim. Desta forma, ela poderia orientar o filho, sem privá-lo de ter suas próprias experiências e constatações.
Da mesma forma que não sei dizer o final que Glória Perez reserva a Tarso, não sei dizer se a história deste rapaz que conheci na Orientação Profissional foi feliz ou não, pois não tive mais noticias dele. O que sei foi que ele mergulhou fundo nas dinâmicas do autoconhecimento propostas pela OP e ao final chegou à conclusão, não somente da profissão que desejava, mas, sobretudo da necessidade de buscar uma psicoterapia que pudesse ajudá-lo a entender sua forma de funcionar no mundo. Espero que o tenha feito e que a Orientação Profissional tenha contribuído para torná-lo uma pessoa melhor e mais feliz.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Entrevista sobre Saúde Mental

Entrevista com Lysianne Moura da Frota, psicóloga com experiência em Saúde Mental, Mestre em Psicossociologia pelo Instituto de Psicologia da UFRJ.

Fale um pouco sobre a sua experiência na área da saúde mental

Considero o início da minha relação com o trabalho de Sáude Mental o estágio que fiz no Hospital Psiquiátrico Casa de Saúde Drº Eiras na década de 1980. Minha monografia de conclusão de curso de graduação em Psicologia foi inspirada por este estágio. Foi uma revisão dos conceitos de SAÚDE E DOENÇA MENTAL. Foi orientada pelo prof.: FRANCO LO PRESTI SEMINÉRIO.


Como foi que você se interessou pela área da saúde mental?

Sempre me interessei por essas questões, por isto mesmo é que
decidi cursar psicologia. As questões vivenciadas pelos portadores de sofrimento psíquico ficam mais evidentes devido aos seus sinais (alucinações, delírios, agressividade - muitas vezes). Contudo, todo ser humano tem seus maus momentos em que necessita de ajuda profissional.

Como podemos reconhecer esses momentos e saber que é hora de buscar ajuda?
Acho pouco provável que o próprio que sofre de transtornos procure auxílio profissional. Geralmente algum familiar, amigo ou mesmo profisional da área da saúde (mesmo que não específicamente profissional de saúde mental), é quem detona o processo.

O que você recomenda para quem quer atuar nesta área?
Muita paciência, estudo constante e análise pessoal também.

Quais as maiores dificuldades encontradas nesta área?

Diversas. Dentre outras, existem as dificuldades de relacionamento com a família dos pacientes. A 'rede de atenção em saúde mental' ainda não se encontra plenamente estruturada.

Você poderia falar um pouco mais disso? Que tipo de dificuldades se costuma ter em relação aos familiares de pacientes? Como o profissional de saúde mental pode ajudá-los?

Em geral as dificuldades da equipe em relação à família e ao próprio portador de sofrimento psíquico se referem à aderência deste ao tratamento. È comum após um período de melhora dos sintomas o tratamento ser abandonado.


Como se dá o trabalho multiprofissional na área da saúde mental?

O trabalho da equipe multiprofissional nessa área vem a partir da REFORMA PSIQUIÁTRICA.Em teoria a proposta da REFORMA é emocionante. Contudo aqui no Brasil desde o início de sua implantação vem enfrentando muitos problemas. Por exemplo, há pacientes que não têm uma estrutura familiar que possa acolhe-los após um período de internação. Mas ele está bem, sob controle e não há porque ficar dentro de uma instituição. Deveria ir para casa e tentar retomar a sua vida. Assim, surgiram as RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS. É uma casa como outra qualquer, na qual
um grupo de ex internos (usuários dos serviços de S.M.), mora. Um profissinal lhes dá apoio constantemente. Todos são livres para ir e vir (como determina a Constituição Federal a todos os cidadãos brasileiros). São também estimulados a trabalhar e se sustentar como todos precisamos fazer.
Desta forma o portador de sofrimento psiquico retoma o seu contato com a vida 'normal'.
Contudo há poucas RESIDÊNCIAS funcionando como deveriam no estado do RJ.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Artigo 4: Reflexões sobre a representação social da loucura

Recentemente li no jornal O Globo uma critica ao programa Big Brother Brasil, exibido pela Rede Globo, segundo a qual os participantes insistem em anular sua individualidade, parecendo mais ou menos iguais. Confesso que não vejo o programa que está no ar, mas, o que pude perceber é que, os “jogadores” estão preocupados em manter determinados padrões que julgam ser do agrado do público e o fazem se auto-rotulando. Dizem o tempo todo “eu sou assim” ou “eu sou assado”, como se a personalidade fosse composta de uma única dimensão, talvez por medo de perderem o famigerado milhão caso deixem cair as mascaras. Mas o que mais me chamou a atenção na critica é que a qualidade com a qual os participantes se auto-definem com maior freqüência é a loucura. Repetem coisas como “eu sou assim mesmo... muito louca”, “eu sou uma pessoa muito maluca”... E é engraçado que digam isto no sentido de fugir dos padrões, de ser alguém diferente, fora do comum. Concordo que alguém que aceita voluntariamente ser submetido a uma experiência como esta, de confinar-se numa casa e ter seus movimentos filmados para serem exibidos em rede nacional, seja motivado por dinheiro ou por fama, tem no mínimo um funcionamento psíquico diferente da maioria das pessoas. Mas estão ali sabendo o que fazem, tanto que se protegem como podem através das artimanhas aqui citadas e de outras mais. E estão inseridos numa cultura onde isto é visto como algo normal, que não entra na ordem do choque. Felizmente nenhum deles é, de fato, louco. Pois garanto que a loucura no sentido etimológico do termo, esta ninguém quer.

E é esta loucura, que faz sofrer, que “despedaça”, que proponho pensarmos aqui. Este preâmbulo sobre o Big Brother foi só uma maneira de abordar o assunto que realmente me interessa: a representação social da loucura e como as pessoas usam o termo. Quase todo dia usamos a palavra, tais como nossos pares televisivos. Falamos com naturalidade “nossa, acho que estou ficando louco”, pois podemos estar atordoados com excesso de serviço, termos tido um comportamento diferente sem querer ou esquecido de algo importante. Ou “Fulano é muito louco”, pois Fulano fez algo novo ou inesperado, e não há nada demais nisso, apenas queremos dizer que algo em nós ou no outro fugiu ao padrão.

O perigo está em se confundir esta “loucura” – observem, entre aspas – com a doença mental propriamente dita. O louco, no sentido psiquiátrico, não é “cool”, como querem fazer parecer os big brothers. Quando falo despedaçamento não é simplesmente uma metáfora. A doença mental é cruel porque fragmenta. Já tive contato com jovens que se sentiam perseguidos por emissoras de TV ou por vozes que os obrigavam a fazer coisas contra sua vontade. Por mais que estas vozes e sentimentos viessem deles mesmos, as tomavam como entidade real. Não conseguiam integrar isto a sua personalidade. Imaginem a angústia que é viver neste constante estado de ameaça!

Por isso fico preocupada com a glamourização que, por vezes, é atribuída à loucura e com a idéia de que o louco é mais feliz do que nós, ditos normais, ou mesmo, genial. Não, NÃO É! Para quem tem uma noção mínima sobre o tema é impossível confundir loucura com genialidade. O que existem são ou pessoas que foram tachadas erroneamente de loucas, quando na verdade estavam à frente do seu tempo ou pessoas que foram geniais apesar de sofrerem transtornos psiquiátricos e não por causa deles. Imaginem o que poderiam fazer se não tivessem sido atravancadas pela doença! Sem dúvida, teriam sido ainda mais brilhantes. E poderiam ter tido uma vida mais leve.

Há muito tempo atrás vi na televisão o final de uma novela onde a vilã era punida com a loucura e tudo sugeria que, agora apesar de tudo o que ela havia aprontado, estava feliz. No hospício reencontrava o outro vilão da história que também havia ido parar lá e iniciavam uma relação romântica num mundo à parte. Esta é uma idéia perigosa. Como pode ser classificada como feliz uma pessoa que vive num estado de desespero interno, pois perdeu o sentido de integridade do eu e ainda é obrigada, muitas vezes a conviver com um rótulo, que ao contrário dos big brothers, não foi escolhido por ela e que certamente preferiria não ter?

É interessante ainda refletirmos sobre outra questão: Punir os vilões com a loucura, clichê tão comum nas obras de ficção, não seria uma maneira de reforçar o preconceito contra o doente mental? Afinal, colocada dessa forma, é como se a doença fosse um castigo para uma conduta inadequada, ou seja, como se a pessoa a fizesse por merecer. Acontece que as pessoas não ficam doentes por serem boas ou más, mas, simplesmente por estarem vivas. A recíproca também é verdadeira: não é pelo fato de sofrer de um distúrbio psíquico que alguém inevitavelmente vira um vilão que põe em risco a integridade de quem o rodeia. Pesquisas realizadas em diferentes países do mundo constataram que somente uma pequena parcela de violência social está relacionada a doença mental, não existindo diferença significativa dos atos de violência cometidos pela média da população geral. Os estudos apontam ainda para comorbidade da doença psiquiátrica com utilização de substâncias psicoativas (álcool e drogas) em grande parte dos atos violentos cometidos por doentes mentais. De acordo com Teixeira, Pereira, Rigacci e Delgalarrondo:*

“Embora as evidências estatísticas e empíricas indiquem a existência de uma relação entre crime violento e psicose, isto apenas representa uma pequena parte da violência ocorrida na comunidade. É bastante plausível que em países como Brasil, no qual a violência e a criminalidade têm intensa associação com condições socioeconômicas, como as que se verificam nos bolsões de miséria das periferias das grandes e médias cidades brasileiras, o percentual dos crimes associados a transtornos mentais graves seja ainda menor. Portanto, apenas uma pequena parcela da violência deve ser atribuída a pacientes psicóticos, mais especificamente aos sujeitos com esquizofrenia, principalmente em nosso país”.

Portanto, é preciso ter cuidado para não estigmatizar o paciente psiquiátrico. Da mesma forma que não existe “o” hipertenso, “o diabético”, “o” aidético, também não existe “o” louco” e sim um ser humano, com todos os sentimentos inerentes a essa condição.

As representações equivocadas da loucura servem apenas para reforçar a ignorância e o preconceito em torno da doença mental, contribuindo para que as pessoas que padecem deste mal e/ou sua famílias, muitas vezes tenham vergonha de buscar ajuda. Torna-se difícil para elas assumir sua condição. E tem uma parcela de razão nisso. Ninguém teme um diabético, que terá que tomar insulina para o resto da vida; pelo contrário, o incentivamos para que possa manter a saúde. No entanto, é comum ter medo de alguém que para o resto da vida terá que tomar anti-psicóticos para manter a saúde mental.

Um autor de novelas pode desconhecer o enorme sofrimento psíquico do doente mental e, sem querer reforçar os estereótipos, mas os profissionais da área da saúde, e em especial, da saúde mental, tem obrigação de desmistificar a doença e esclarecer os fatos. Da mesma forma que hoje já se tem outro entendimento sobre AIDS, por exemplo, há de se chegar o dia em que a sociedade consiga enxergar o paciente psiquiátrico como alguém que pode e deve ser tratado e, apesar das limitações da doença, levar uma vida normal, estudando, trabalhando, interagindo no mundo. Isto é, como alguém que também faz parte desta mesma sociedade.


Fonte da citação: TEIXEIRA, Eduardo Henrique, PEREIRA, Marcelo Carlos, RIGACCI, Renata e DALGALARRONDO, Paulo. Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento: uma revisão das evidências empíricas. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Vol.56, nº 2, Rio de Janeiro, 2007 (http://www.scielo.br/scielo), acessado em 31/03/09

Autoria da Psicóloga Elaine Christovam de Azevedo - CRP 05/27694

sexta-feira, 20 de março de 2009

Artigo 3: A Família e a Escola – algumas reflexões

O presente ‘artigo’, como dito acima, não pretende ser um trabalho acadêmico, mas tão somente refletir sobre os diversos papéis envolvidos no assunto. Na verdade, para se pensar o tema é necessário levar em consideração os diversos atores sociais que estão implicados nesta dinâmica.

Para além do espaço físico da escola (que pode ou não ter biblioteca, laboratório de informática, quadra poliesportiva, etc...) existem as pessoas que por ela transitam e a integração entre elas. Não há sentido na escola que dispõe de diversos recursos tecnológicos e não têm professores, alunos, pais, enfim, seres humanos que lhes dêem significado.

Há que se pensar e definir o ‘papel de cada um’ nesta dinâmica bem como a interação/integração entre esses. A instituição escola não pode e nem deve absorver todas as atribuições e responsabilidades dos pais. E nem poderia, mesmo que tentasse. Contudo, na atualidade com todas as dificuldades que as famílias enfrentam, principalmente nos grandes centros urbanos, é comum que os pais ‘cobrem’ cada vez mais dos professores, diretores, auxiliares de berçários, etc...

O problema não está em cobrar, mas no tipo de cobrança. É perfeitamente normal que os pais queiram o melhor para o seu filho. O problema está em exigir que os professores ultrapassem os limites profissionais para tornarem-se pais ou mães. Educação formal não é educação de berço. A escola não é e jamais deverá ocupar o lugar da família. Os cuidados parentais são insubstituíveis. Um professor poderá ter até 50 alunos, mas não 50 filhos!

Quando um homem ou uma mulher faz a opção de ter filhos assume uma nova e enorme responsabilidade, a de contribuir para a formação de um ser humano, não somente com o amor – fundamental - mas com valores, limites, com uma educação que vai muito além dos muros da escola.

Texto das Psicólogas Elaine Christovam e Lysianne Frota

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Entrevista com o especialista: EM BREVE

Para abrir a nossa série de Entrevistas convidamos a Coordenadora do Grupo Avalie & Realize para falar sobre saúde mental. Lysianne é Mestre em Psicologia Social e implantou o serviço de saúde mental em Itamonte, em Minas Gerais, além de ser uma estudiosa apaixonada do tema. A entrevista será publicada em maio e dividida em blocos, considerando a amplitude do tema. O primeiro bloco será sobre "O que, de fato, é saúde mental?" e quem tiver interesse pode mandar suas perguntas para o e-mail avalie.realize@yahoo.com.br