segunda-feira, 6 de abril de 2009

Artigo 4: Reflexões sobre a representação social da loucura

Recentemente li no jornal O Globo uma critica ao programa Big Brother Brasil, exibido pela Rede Globo, segundo a qual os participantes insistem em anular sua individualidade, parecendo mais ou menos iguais. Confesso que não vejo o programa que está no ar, mas, o que pude perceber é que, os “jogadores” estão preocupados em manter determinados padrões que julgam ser do agrado do público e o fazem se auto-rotulando. Dizem o tempo todo “eu sou assim” ou “eu sou assado”, como se a personalidade fosse composta de uma única dimensão, talvez por medo de perderem o famigerado milhão caso deixem cair as mascaras. Mas o que mais me chamou a atenção na critica é que a qualidade com a qual os participantes se auto-definem com maior freqüência é a loucura. Repetem coisas como “eu sou assim mesmo... muito louca”, “eu sou uma pessoa muito maluca”... E é engraçado que digam isto no sentido de fugir dos padrões, de ser alguém diferente, fora do comum. Concordo que alguém que aceita voluntariamente ser submetido a uma experiência como esta, de confinar-se numa casa e ter seus movimentos filmados para serem exibidos em rede nacional, seja motivado por dinheiro ou por fama, tem no mínimo um funcionamento psíquico diferente da maioria das pessoas. Mas estão ali sabendo o que fazem, tanto que se protegem como podem através das artimanhas aqui citadas e de outras mais. E estão inseridos numa cultura onde isto é visto como algo normal, que não entra na ordem do choque. Felizmente nenhum deles é, de fato, louco. Pois garanto que a loucura no sentido etimológico do termo, esta ninguém quer.

E é esta loucura, que faz sofrer, que “despedaça”, que proponho pensarmos aqui. Este preâmbulo sobre o Big Brother foi só uma maneira de abordar o assunto que realmente me interessa: a representação social da loucura e como as pessoas usam o termo. Quase todo dia usamos a palavra, tais como nossos pares televisivos. Falamos com naturalidade “nossa, acho que estou ficando louco”, pois podemos estar atordoados com excesso de serviço, termos tido um comportamento diferente sem querer ou esquecido de algo importante. Ou “Fulano é muito louco”, pois Fulano fez algo novo ou inesperado, e não há nada demais nisso, apenas queremos dizer que algo em nós ou no outro fugiu ao padrão.

O perigo está em se confundir esta “loucura” – observem, entre aspas – com a doença mental propriamente dita. O louco, no sentido psiquiátrico, não é “cool”, como querem fazer parecer os big brothers. Quando falo despedaçamento não é simplesmente uma metáfora. A doença mental é cruel porque fragmenta. Já tive contato com jovens que se sentiam perseguidos por emissoras de TV ou por vozes que os obrigavam a fazer coisas contra sua vontade. Por mais que estas vozes e sentimentos viessem deles mesmos, as tomavam como entidade real. Não conseguiam integrar isto a sua personalidade. Imaginem a angústia que é viver neste constante estado de ameaça!

Por isso fico preocupada com a glamourização que, por vezes, é atribuída à loucura e com a idéia de que o louco é mais feliz do que nós, ditos normais, ou mesmo, genial. Não, NÃO É! Para quem tem uma noção mínima sobre o tema é impossível confundir loucura com genialidade. O que existem são ou pessoas que foram tachadas erroneamente de loucas, quando na verdade estavam à frente do seu tempo ou pessoas que foram geniais apesar de sofrerem transtornos psiquiátricos e não por causa deles. Imaginem o que poderiam fazer se não tivessem sido atravancadas pela doença! Sem dúvida, teriam sido ainda mais brilhantes. E poderiam ter tido uma vida mais leve.

Há muito tempo atrás vi na televisão o final de uma novela onde a vilã era punida com a loucura e tudo sugeria que, agora apesar de tudo o que ela havia aprontado, estava feliz. No hospício reencontrava o outro vilão da história que também havia ido parar lá e iniciavam uma relação romântica num mundo à parte. Esta é uma idéia perigosa. Como pode ser classificada como feliz uma pessoa que vive num estado de desespero interno, pois perdeu o sentido de integridade do eu e ainda é obrigada, muitas vezes a conviver com um rótulo, que ao contrário dos big brothers, não foi escolhido por ela e que certamente preferiria não ter?

É interessante ainda refletirmos sobre outra questão: Punir os vilões com a loucura, clichê tão comum nas obras de ficção, não seria uma maneira de reforçar o preconceito contra o doente mental? Afinal, colocada dessa forma, é como se a doença fosse um castigo para uma conduta inadequada, ou seja, como se a pessoa a fizesse por merecer. Acontece que as pessoas não ficam doentes por serem boas ou más, mas, simplesmente por estarem vivas. A recíproca também é verdadeira: não é pelo fato de sofrer de um distúrbio psíquico que alguém inevitavelmente vira um vilão que põe em risco a integridade de quem o rodeia. Pesquisas realizadas em diferentes países do mundo constataram que somente uma pequena parcela de violência social está relacionada a doença mental, não existindo diferença significativa dos atos de violência cometidos pela média da população geral. Os estudos apontam ainda para comorbidade da doença psiquiátrica com utilização de substâncias psicoativas (álcool e drogas) em grande parte dos atos violentos cometidos por doentes mentais. De acordo com Teixeira, Pereira, Rigacci e Delgalarrondo:*

“Embora as evidências estatísticas e empíricas indiquem a existência de uma relação entre crime violento e psicose, isto apenas representa uma pequena parte da violência ocorrida na comunidade. É bastante plausível que em países como Brasil, no qual a violência e a criminalidade têm intensa associação com condições socioeconômicas, como as que se verificam nos bolsões de miséria das periferias das grandes e médias cidades brasileiras, o percentual dos crimes associados a transtornos mentais graves seja ainda menor. Portanto, apenas uma pequena parcela da violência deve ser atribuída a pacientes psicóticos, mais especificamente aos sujeitos com esquizofrenia, principalmente em nosso país”.

Portanto, é preciso ter cuidado para não estigmatizar o paciente psiquiátrico. Da mesma forma que não existe “o” hipertenso, “o diabético”, “o” aidético, também não existe “o” louco” e sim um ser humano, com todos os sentimentos inerentes a essa condição.

As representações equivocadas da loucura servem apenas para reforçar a ignorância e o preconceito em torno da doença mental, contribuindo para que as pessoas que padecem deste mal e/ou sua famílias, muitas vezes tenham vergonha de buscar ajuda. Torna-se difícil para elas assumir sua condição. E tem uma parcela de razão nisso. Ninguém teme um diabético, que terá que tomar insulina para o resto da vida; pelo contrário, o incentivamos para que possa manter a saúde. No entanto, é comum ter medo de alguém que para o resto da vida terá que tomar anti-psicóticos para manter a saúde mental.

Um autor de novelas pode desconhecer o enorme sofrimento psíquico do doente mental e, sem querer reforçar os estereótipos, mas os profissionais da área da saúde, e em especial, da saúde mental, tem obrigação de desmistificar a doença e esclarecer os fatos. Da mesma forma que hoje já se tem outro entendimento sobre AIDS, por exemplo, há de se chegar o dia em que a sociedade consiga enxergar o paciente psiquiátrico como alguém que pode e deve ser tratado e, apesar das limitações da doença, levar uma vida normal, estudando, trabalhando, interagindo no mundo. Isto é, como alguém que também faz parte desta mesma sociedade.


Fonte da citação: TEIXEIRA, Eduardo Henrique, PEREIRA, Marcelo Carlos, RIGACCI, Renata e DALGALARRONDO, Paulo. Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento: uma revisão das evidências empíricas. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Vol.56, nº 2, Rio de Janeiro, 2007 (http://www.scielo.br/scielo), acessado em 31/03/09

Autoria da Psicóloga Elaine Christovam de Azevedo - CRP 05/27694