terça-feira, 25 de agosto de 2009

Artigo: Reflexões sobre Orientação Profissional

Assisti uma cena da novela Caminho das Índias, da Rede Globo, há algum tempo atrás onde o personagem Tarso se descontrolava por que se sentia pressionado para trabalhar na empresa do pai e não desejava isso. Em outra cena, o mesmo personagem dizia para a namorada que não sabia quem era ou o que queria ser, se queria ser músico, arquiteto ou outra profissão.
Independentemente dos problemas mentais que o personagem vem demonstrando nos capítulos mais recentes, é comum que os jovens passem por este processo de angústia quando chega o momento em que terão que decidir a sua futura profissão. Portanto, enquanto orientadora profissional estas cenas me levaram a refletir sobre algumas questões. Em primeiro lugar, sempre achei curioso o quanto nos identificamos com a profissão que escolhemos, a tal ponto que ela passa a ocupar o lugar do “quem somos”. Experimente perguntar a qualquer pessoa sobre outra e em resposta ao “quem é ele” quase sempre você ouvirá a profissão do sujeito. Pergunte “o que você é” ou “o que você faz?” e o mesmo acontecerá. Em geral, a profissão prevalece sobre uma infinidade de outras respostas que poderíamos ter.
Penso que por isso os momentos em que somos cobrados a tomar determinadas atitudes que envolvem a questão profissional são tão angustiantes, momentos estes que vão da escolha profissional até a aposentadoria.
Enquanto a angústia daquele que está prestes a se aposentar é a de quem fez uma opção no passado e agora precisará descobrir novos caminhos, a do adolescente é a de quem terá que escolher pela primeira vez o seu caminho.
Defrontar-se com a escolha profissional significa deixar de ser estudante – o que não foi uma escolha sua, mas dos pais, preocupados com a sua educação – para assumir outra identidade, no caso, a identidade profissional. É como se ao escolher qual profissão quer seguir estivesse respondendo para o mundo quem ele é, suas qualidades e aspirações, como se estivesse mostrando a sua personalidade. As escolhas legitimas implicam em abraçar determinadas causas e abrir mão de outras, seja por de fato não se identificar ou não ter talento para estas ou porque era necessário, já que nunca, em tempo algum, ninguém conseguirá fazer simultaneamente todas as coisas com que sonha.
Escolher é difícil porque implica renunciar, mas o processo é menos sofrido se a escolha for coerente com quem somos, como pensamos, sentimos e como funcionamos no mundo. Já vi pessoas que são felizes exercendo profissões marcadas pela instabilidade e outras que jamais teriam estrutura para lidar com isso. Da mesma forma, já vi profissionais que ganham excelentes salários e sentem-se frustrados, pois a única realização no que fazem é o contracheque no final do mês.
Voltemos ao personagem da novela: um adulto jovem, que já está na faculdade, mas sente-se confuso por não ter certeza ainda do que quer e por ser insistentemente pressionado pelos pais a seguir um rumo que o deixaria infeliz. Quando diz “esta cadeira não tem nada a ver comigo”, referindo-se a cadeira da presidência da empresa do pai, está dizendo que assumir este lugar é anular a sua personalidade. Sem perceber a sensibilidade do filho, o pai quer que assuma o posto de empresário bem-sucedido, com faro para os negócios.
Sei que os pais são bem-intencionados ao querer ajudar o filho a escolher uma profissão, até mesmo porque já passaram pelo momento da escolha e sabem o sofrimento que este impõe. Mas a melhor maneira de ajudá-los é apenas mostrar para eles o que já passaram, contar suas experiências e até aconselhar, mas, sem impor. Pois, do contrário, podem destruir um talento ou gerar um sofrimento psíquico desnecessário. É preciso que o jovem descubra por conta própria a profissão com a qual se identifica e os prós e os contras desta.
Já tive oportunidade de trabalhar com jovens como Tarso, que tem aptidões para determinadas áreas, mas, sentem-se pressionados a fazer outras coisas. Lembro de um rapaz na faixa dos 20 e poucos anos que procurou a OP porque já havia mudado de faculdade um número infinito de vezes, sem conseguir definir o que queria. Curiosamente, todos os cursos que havia tentado tinham a ver com artes e seus testes, entrevistas, tudo nele apontava uma sensibilidade neste sentido. No meio do processo foi possível perceber, porém, que a difícil relação familiar, marcada por um pai ausente e uma mãe autoritária, contribuía para que não conseguisse estabelecer-se numa profissão e, mais do que isso, não conseguisse saber quem de fato era. Ouvindo o próprio rapaz e sua mãe, percebi que ela colocava defeito em todos os cursos que o filho iniciava, evocando velhos clichês, tais como “isto é coisa de bicha” ou “nessa área só tem drogado”, etc.
Tenho certeza que esta mãe amava o filho e queria o melhor para ele, mas, o efeito foi o contrário. O rapaz se rebelava contra a mãe fazendo determinadas coisas que colocavam sua própria integridade física em risco, mas, não conseguia escolher uma profissão nem fazer nada que o inscrevesse no mundo adulto, pulando de “galho em galho”, sem nunca conseguir se firmar em nenhum. Notem que esta mãe não impedia o filho de iniciar seus projetos, mas continuava exercendo tal pressão a ponto que o menino nunca conseguia terminá-los.
Neste caso, o trabalho do orientador é tentar o mais delicadamente possível clarificar esta situação para os pais, mostrando os dados da realidade e desfazendo estereótipos. Esta mãe realmente identificava artistas com marginais e queria resguardar o filho. Era preciso esclarecer para ela que na prática não é bem assim. Desta forma, ela poderia orientar o filho, sem privá-lo de ter suas próprias experiências e constatações.
Da mesma forma que não sei dizer o final que Glória Perez reserva a Tarso, não sei dizer se a história deste rapaz que conheci na Orientação Profissional foi feliz ou não, pois não tive mais noticias dele. O que sei foi que ele mergulhou fundo nas dinâmicas do autoconhecimento propostas pela OP e ao final chegou à conclusão, não somente da profissão que desejava, mas, sobretudo da necessidade de buscar uma psicoterapia que pudesse ajudá-lo a entender sua forma de funcionar no mundo. Espero que o tenha feito e que a Orientação Profissional tenha contribuído para torná-lo uma pessoa melhor e mais feliz.